A ameaça invisível: como dor e sono impactam a saúde e a produtividade nas empresas
Quando a saúde influencia o comportamento
Em uma palestra do Fronteiras do Pensamento, o neurocientista português António Damásio destacou uma reflexão importante:
“Dor não é uma emoção. Dor é um sentimento. E sentimentos podem modificar comportamentos.”
A afirmação ajuda a compreender um desafio cada vez mais presente nas organizações: o impacto de condições de saúde muitas vezes silenciosas sobre o bem-estar, o comportamento e o desempenho dos colaboradores.
Diariamente, empresas convivem com profissionais que trabalham enfrentando dores crônicas, alterações do sono, fadiga, irritabilidade e dificuldade de concentração — situações que nem sempre são percebidas ou diagnosticadas.
Com a ampliação das discussões sobre saúde psicossocial e as atualizações da NR-1, olhar para esses fatores tornou-se ainda mais relevante.
Um problema que nem sempre é percebido
Em uma equipe de 10 colaboradores, é possível que:
- ◉ 1 a 2 pessoas apresentem dores relacionadas à face, cabeça, tensão muscular ou bruxismo;
- ◉ 1 a 3 pessoas tenham alterações importantes do sono, como ronco, fadiga ou apneia obstrutiva do sono.
Embora continuem exercendo suas atividades normalmente, esses profissionais podem enfrentar desafios como:
- ◉ sono não reparador;
- ◉ cansaço constante;
- ◉ redução da concentração;
- ◉ irritabilidade;
- ◉ dores frequentes;
- ◉ queda gradual de desempenho.
Quando não identificadas e tratadas, essas condições podem impactar a produtividade, a qualidade de vida, a segurança e até mesmo aumentar índices de absenteísmo.
Mas existe outro fenômeno frequentemente menos percebido pelas organizações: o presenteísmo.
O presenteísmo ocorre quando o colaborador está fisicamente presente no trabalho, porém com redução de energia, atenção, capacidade de decisão e desempenho em razão de problemas de saúde. Estudos demonstram que os custos relacionados ao presenteísmo podem superar significativamente aqueles associados aos afastamentos, tornando-o um dos desafios mais silenciosos da gestão da saúde corporativa.
DTM: uma condição mais comum do que parece
As Disfunções Temporomandibulares (DTM) são alterações que afetam a articulação da mandíbula, os músculos da mastigação e estruturas associadas.
Entre os sintomas mais comuns estão:
- ◉ dores na face;
- ◉ dores de cabeça;
- ◉ tensão muscular;
- ◉ bruxismo;
- ◉ apertamento dentário;
- ◉ desconforto cervical;
- ◉ limitações funcionais.
Segundo uma revisão sistemática global publicada em 2025, a prevalência média das DTMs é próxima de 30% da população adulta, com maior ocorrência entre mulheres.
Isso significa que milhões de pessoas convivem diariamente com dores orofaciais sem receber diagnóstico ou tratamento adequado.
Além do desconforto físico, essas condições podem interferir na qualidade do sono, no humor, na capacidade de concentração e no desempenho das atividades diárias.
O impacto do sono na qualidade de vida e no desempenho
Os distúrbios do sono também representam um importante desafio para a saúde da população.
A apneia obstrutiva do sono, por exemplo, afeta aproximadamente 1 bilhão de pessoas no mundo. No Brasil, o estudo EPISONO identificou uma prevalência de cerca de 32,9% da população adulta.
Entre os principais efeitos da condição estão:
- ◉ fragmentação do sono;
- ◉ fadiga diurna;
- ◉ dificuldade de concentração;
- ◉ redução da atenção;
- ◉ alterações de humor;
- ◉ comprometimento da qualidade de vida.
Muitas vezes, os primeiros sinais percebidos são justamente comportamentais, como cansaço persistente, irritabilidade, lapsos de atenção e redução da produtividade.
Quando associados à dor crônica, os distúrbios do sono podem potencializar ainda mais os efeitos sobre o bem-estar e o desempenho profissional.
O que muda com a NR-1?
As recentes atualizações relacionadas à NR-1 reforçam a importância da gestão dos fatores psicossociais no ambiente de trabalho.
Na prática, isso significa que as empresas precisam ampliar seu olhar sobre a saúde dos colaboradores, considerando de forma integrada aspectos físicos, emocionais e comportamentais.
Condições como:
- ◉ dor crônica;
- ◉ fadiga;
- ◉ alterações do sono;
- ◉ estresse persistente;
- ◉ sofrimento emocional;
podem impactar diretamente o bem-estar, a segurança e o desempenho profissional.
Nesse contexto, programas de promoção da saúde deixam de representar apenas um benefício corporativo e passam a integrar estratégias de gestão de risco, sustentabilidade organizacional, retenção de talentos e fortalecimento da cultura de cuidado.
O papel da odontologia nesse contexto
O cirurgião-dentista pode desempenhar um papel importante na identificação precoce de sinais relacionados à saúde e à qualidade de vida dos pacientes.
Durante as consultas, é possível observar indícios de:
- ◉ bruxismo;
- ◉ tensão muscular;
- ◉ dores orofaciais;
- ◉ alterações relacionadas ao sono;
- ◉ sintomas associados à fadiga.
Por isso, a odontologia moderna atua cada vez mais de forma integrada com outras áreas da saúde, como medicina do sono, fisioterapia, otorrinolaringologia e saúde mental.
O diagnóstico precoce e o encaminhamento adequado contribuem para um cuidado mais completo e efetivo.
Rede qualificada para um cuidado integral
A identificação precoce desses sinais depende de uma rede assistencial preparada para atuar de forma integrada e multiprofissional.
A Uniodonto Porto Alegre conta com uma rede de cirurgiões-dentistas qualificados e preparados para contribuir nesse processo, auxiliando na identificação de condições que podem impactar a saúde, a qualidade de vida e o desempenho das pessoas.
Em um cenário em que saúde, comportamento e bem-estar estão cada vez mais conectados, o cuidado integral torna-se um importante aliado na promoção da saúde das pessoas e das organizações.
Para refletir
- ◉ Sua organização monitora apenas absenteísmo ou também presenteísmo?
- ◉ Os programas de promoção da saúde incluem qualidade do sono e manejo da dor crônica?
- ◉ Gestores e lideranças conseguem reconhecer sinais persistentes de fadiga, irritabilidade e redução de desempenho?
- ◉ Existe integração entre saúde ocupacional, medicina, odontologia e saúde mental na estratégia de cuidado aos colaboradores?
Uma reflexão para as empresas
Se sentimentos moldam comportamentos, como propõe António Damásio, vale uma pergunta para as organizações:
Quantas dificuldades atribuídas à motivação, ao engajamento ou ao desempenho podem ter origem em condições de saúde ainda não identificadas?
Nem sempre os maiores desafios aparecem nos indicadores tradicionais.
Muitas vezes, eles estão presentes em situações silenciosas que afetam o dia a dia dos colaboradores, como dores recorrentes, tensão muscular, fadiga e sono não reparador.
Olhar para a saúde de forma integral não é apenas cuidar das pessoas. É também cuidar da capacidade das organizações de prosperar de forma sustentável, produtiva e humana.